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Comunicar ciência

Um blogue sobre comunicação de ciência em linguagem clara (antigo "Estrada para Damasco")

As florestas de algas

24.08.21 | Cristina Nobre Soares

 

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A Susana Celestino é investigadora do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Polo da Universidade de Évora) e frequentou o curso "Comunicar Ciência Clara" que decorreu no MARE. Este foi o seu trabalho final: sobre estas algas com quais nos voltamos a encontrar nesta altura do ano, durante as nossas idas à praia.

 

Quando eu era pequena, grande parte das férias do verão eram passadas em casa dos meus avós, numa aldeia em Trás-os-Montes. Umas das minhas brincadeiras preferidas era jogar às escondidas com os meus primos numa floresta de carvalhos e outras árvores, que havia atrás da casa dos meus avós. Anos mais tarde, quando comecei a trabalhar como bióloga marinha, descobri que também há florestas no mar, as florestas de algas, que são comuns em Portugal, mas têm vindo a desaparecer.

As algas podem dividir-se em 3 grandes grupos: vermelhas, verdes e castanhas. São algumas espécies de algas castanhas, também conhecidas como kelps, as quais podem formar grandes florestas no mar. Estão geralmente presentes na zona litoral situada abaixo do nível da maré baixa, sempre abaixo da linha de água, a profundidades que podem ir dos 5 aos 20 metros, ou até mesmo mais. Também as podemos encontrar na praia, depois de grandes tempestades ou quando atingem o seu fim de vida. Mesmo na areia e em decomposição, servem de habitat para uma grande diversidade de outras espécies.

As áreas costeiras pouco profundas, onde a luz penetra com facilidade, são o berço do oceano. Aqui, as florestas de algas castanhas crescem, ao mesmo tempo que sustentam todas as outras formas de vida no oceano. Elas capturam e fixam o carbono presente na atmosfera libertando oxigénio, capturam nutrientes da água contribuindo para a diminuição da acidificação dos oceanos e amenizam a ação das ondas prevenindo a erosão costeira.

Mas, as florestas de algas castanhas estão a diminuir rapidamente ao longo da costa europeia. Esta diminuição tem consequências graves para os ecossistemas, como a diminuição da quantidade e abundância de espécies de peixes ou a diminuição do sequestro de carbono . Preservar e restaurar estas florestas é fundamental – mais vida tem que ser adicionada ao oceano para compensar a que já se perdeu. Isto é ainda mais importante e urgente em Portugal, porque aqui existe a ameaça de algumas espécies de algas marinhas se perderem para sempre.

O projeto “SeaForest Portugal” tem como objectivo desenvolver metodologias inovadoras de plantação de algas (Seaforestation) no mar português. Estas técnicas de plantação de algas já estão a ser implementadas ao longo da costa continental portuguesa. Por exemplo, na costa alentejana foram presos no fundo de algumas poças de maré pequenos sacos de rede contendo pedaços de folhas da alga castanha da espécie Laminaria ochroleuca com umas manchas escuras onde estão localizadas as estruturas reprodutivas destas algas. Esperamos que estas estruturas tenham libertado uma espécie de sementes e que estas se tenham conseguido fixar às rochas, dando origem a novas algas.

Paralelamente, outro objetivo deste projeto é desenvolver ações de ciência cidadã para ajudar a mapear as florestas marinhas de algas castanhas em Portugal. Serão elaborados guias, posters e panfletos explicativos das principais espécies de algas castanhas existentes em cada região e serão realizados alguns workshops em escolas, centros de mergulho, etc. Nós, os investigadores, sempre que mergulhamos, fazemos um registo de todas as observações destas algas, mas, se não formos apenas nós a fazer estes registos de observações, seria possível saber muito mais...

Tal como eu jogava às escondidas na floresta atrás da casa dos meus avós, também vocês podem participar neste jogo de descobrir onde estão escondidas as florestas de algas, e só precisam do vosso telemóvel. Sempre que forem mergulhar ou dar um passeio na praia, estejam atentos! Se virem uma destas algas, tirem uma fotografia, registem a coordenada geográfica e enviem essa informação para o site marineforests.com.

É muito mais fácil, se todos ajudarmos.

 

 

 

 

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