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Comunicar ciência

Um blogue sobre comunicação de ciência em linguagem clara (antigo "Estrada para Damasco")

Uma microscópica ameaça à história

02.08.21 | Cristina Nobre Soares

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É Agosto e quase todo o país está de férias. Mas mesmo de férias, a fazer turismo, há sempre uma curiosidade científica que podemos levar connosco. Como é o caso desta, que a Mara Silva, mais uma aluna do "Comunicar Ciência Clara", nos traz, explicando-nos como é que uma bactéria ajudou a recuperar a cor original da Sé Catedral de Évora. A Mara é doutorada e investigadora em bioquímica.

 

A Basílica da Sé de Nossa Senhora da Assunção ou, como é conhecida, a Sé Catedral de Évora é a maior catedral medieval de Portugal. A sua construção iniciou-se em 1186 e só ficou concluída 64 anos depois.

No entanto, o que os seus arquitetos e engenheiros não previam é que passado uns quantos anos, as suas paredes interiores, inicialmente de cor cinzenta, se tornassem um dia, cor-de-rosa. Sabemos que um certo toque de decoração mais contemporânea poderia trazer alguma jovialidade a um ambiente tão antigo como de uma catedral. Mas o que para uns podia ser sinal de alguma modernidade, para outros podia ser o início de alterações irreparáveis nas paredes de um edifício que pertence a Portugal desde o seu berço. 

Uma levedura, organismo microscópico que pertence ao reino dos fungos (ou bolores), de seu nome Rhodotorula, foi a principal decoradora destas áreas de pigmentação rosada que se espalhou rapidamente pelas paredes interiores da catedral. Estes pequenos seres vivos, que rapidamente vemos crescerem numa laranja velha ou numa carcaça esquecida no cesto do pão, são responsáveis por termos que deitar para o lixo os alimentos que estávamos a contar usar numa receita. São também aqueles que nos fazem comprar produtos de limpeza para retirar as manchas negras no teto da casa de banho, após um Inverno mais rigoroso.

Estes seres microscópicos, que vão crescendo sem controlo nas nossas paredes, não só provocam alteração de cor, como também aberturas e alterações sérias nas estruturas. A este processo de desgaste, provocado por seres vivos, chamamos biodegradação.

Conservadores-restauradores, com a ajuda de bioquímicos e de outros investigadores, estudam e observam os resultados da presença destes microrganismos em obras de arte. Identificar que tipo de ser vivo pode estar presente e estudar os seus efeitos é o primeiro passo para encontrar soluções que controlem e eliminem o fenómeno de biodegradação na obra de arte.

Biocidas (derivado de Bio – vida e cida – destruição, morte) são substâncias químicas que podem ser usadas durante uma obra de conservação e restauro de forma a eliminar a presença de microrganismos que danifiquem o nosso património. Um biocida deve ter certas características que lhe permita ser eficiente a eliminar estes bolores, sem provocar nenhum tipo de alteração na obra de arte. Além disso, deve ser “amigo do ambiente” e não ser tóxico.

Um novo produto biocida foi criado a partir de bactérias que produzem, em determinadas situações, substâncias naturais que conseguem eliminar os bolores que crescem nas obras de arte. As bactérias e os fungos competem pelo mesmo ambiente e nutrientes e por isso algumas dessas bactérias desenvolveram um mecanismo para produzir substâncias hostis para os seus grandes rivais, os fungos. Ou seja, os cientistas utilizam microrganismos inofensivos para controlar outros microrganismos que possam danificar o nosso património.

Os resultados dos vários testes em laboratório mostraram que as substâncias produzidas por estas bactérias do género Bacillus não só são uma alternativa eficiente para controlar a presença de fungos na nossa história, como também não apresentam efeitos negativos onde e em quem são aplicadas.

Agora, os engenheiros e arquitetos da Sé de Évora já podem respirar fundo finalmente. As paredes interiores já foram restauradas e voltaram à cor original, cinza. E nós, também já podemos ficar tranquilos. Sabemos que hoje existem profissionais qualificados, que continuamente trabalham para encontrar as melhores alternativas para conservar o que os nossos antepassados nos deixaram. Isto sem, claro, prejudicar o meio ambiente, a obra de arte e os intervenientes na obra de conservação e restauro.

 

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